segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Saudade remexida


Pensei, escrevi, perdi tempo riscando e rabiscando; projectei o autêntico e o absurdo, mas no fim não extraíra mais do que meia dúzia de linhas. Meia dúzia de suposições que acabaram por que me fazer sopitar, nesta tarde desolada e melancólica. O que se vem a verificar, é que não estás cá, neste mundo que se torna gradualmente sem cor, amortecido em mágoa e ilustrado de impaciência. A saudade (aquele sentimento inoportuno e doloroso), essa sim, não pára de correr diante de mim, trazendo consigo um rasto desmedido que tende a tornar-se maior à medida que o tempo desliza. Mudando o flanco de visão, observo agora o sol a pôr-se e com ele esvai-se também o sentimento vazio que me amarga a alma.

Tenho-te no centro das minhas emoções, contigo quero atravessar esta dor e voltar a agarrar as bolas de sabão movidas magicamente ao sabor do vento. No entanto, reflicto só, encurralado nestas memórias soltas e sem nexo que vão percorrendo o meu ser. Meu doce, anseio cada sorriso, cada palavra, cada momento que em tempos partilhámos. Um toque teu encher-me-ia de satisfação, a minha alma transbordaria de ternura. Por isso, sigo, sem cessar, o desejo de permanecer ao teu lado, mas sou impedido por esse ser tão fugaz, que se perde num desfocado e longínquo horizonte.Sou submetido a forças inexplicáveis que me arrastam desmesuradamente até a um fundo circundante de medo a defrontar (esse mesmo que guardo receosamente moldado dentro de mim). Contudo, o pressentimento que me assombra já não é mais uma barreira inquebrável, porque acredito e lanço toda a minha bravura para o alcançar, a META que se dispõe a ser erguida por aquele que ousou todas as objecções e afortunado abraçou aquilo que mais queria. Posteriormente, ouve-se um grito de glória que se faz ecoar livremente. Por fim, sou intrometido pelo vento que atravessa a janela entreaberta do meu quarto e me vem suspirar à cara, fazendo-me acordar deste momento singular. Oh, já se faz noite!


*Miguel

3 comentários:

  1. Saudade

    É uma existência cruel, essa a que as saudades nos forçam.
    Comprometemos meio-presente para (re)viver o passado vezes sem conta. A Saudade é um filme. Um filme que queremos ver uma e outra vez, já conhecendo o final, tendo decorado o enredo e tratando as personagens como nossos semelhantes. Mas não nos importamos, é mesmo por elas que o (re)vemos e pelo enredo que lá estamos.
    A Saudade é um filme paradoxal de cuja fita velha e extenuada abusamos. Queremos vê-lo sempre (a fita é talvez imortal), ele lembra-nos daquilo que nos faz felizes mas deixa-nos nostálgicos, sem força para deixar as cadeiras da sala de cinema em que nos perdemos sob a ténue luz âmbar da incerteza.
    A Saudade é um filme para adultos. E é um filme alternativo. Alternativo à memória que nos pode atraiçoar, falhar ou enganar, desertar quando dela precisamos. A Saudade não. Se a dor existe para nos recordar de que algo está mal, a Saudade existe para nos recordar de que algo simplesmente não está.

    A Saudade é o tudo quando não temos nada.
    É Janus, o Deus, com uma só face voltada para o passado.
    A Saudade é ver-te partir, é um barco no mar, um punhado de cartas rasgadas arremessadas ao vento, o “tique-taquear” fugitivo de um relógio tímido, a fita de um filme gasto que passa em direcção à fornalha, as páginas de um livro que acabam com uma frase em reticências...

    A Saudade é um pássaro preso numa gaiola dourada a chorar a Marselhesa.



    Hugo Picado de Almeida
    9 de Novembro de 2007

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  2. São textos tão bonitos os que vocês escrevem! Adoro mesmo, e aprecio imenso essa vossa tal maneira mágica de usar as palavras : D
    São óptimos os vossos textos, parabéns *

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  3. Olha pipoqinha :$ Tao todos lindos, sinceramente não sei que te diga, a verdade é que fiquei colada ao ecrã :D
    Escreves maravilhosamente bem.

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